Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Mudanças para brasileira ver



Tem uma coisa que eu aprendi faz tempo: a única coisa certa na vida são as mudanças. Por isso tento ser otimista com relação a isso, não adianta resistir. Se você adia a mudança, quando ela chega é para te derrubar, não vem suave. Por isso até prefiro ir atrás das mudanças. Já que elas são inevitáveis, vamos atrás delas.
As únicas mudanças que realmente não suporto são as de casa. Faz doze anos que moro no mesmo apartamento em Sampa, mas em um ano de Inglaterra mudei três vezes. Cheguei aqui com duas malas e tudo deu cria: roupas, panelas, pratos, toalhas, lençóis, nunca vi tanta coisa, minha vida aqui é tão espartana, tudo tão temporário mas preciso de umas vinte malas para colocar tudo que eu tenho. A notícia boa é que todas as mudanças foram para melhor. Quando mudei do apartamento que dividia com os hooligans, morei com cinco indianas que eram bem organizadas. Todas vegetarianas. Aprendi que tem muito vegetariano que só come pizza, batata frita e pão com a desculpa de não comer carne, mas legumes, frutas e saladas que é bom nem pensar. O que eles deveriam ser é carboidratianos.
Por nosso acabei virando o bicho estranho lá, elas sempre espionavam o que eu estava comendo. Tinha uma que dava blitz na cozinha todas as vezes que eu tomava café da manhã para perguntar tudo sobre minha dieta. Isto incluía também as carnes que eu preparava, nunca me senti tão carnívora com os meus frangos, perus e peixes. Elas cresciam tanto o olho nos meus assados que eu até oferecia, mas a religião não permitia, claro. Vai ver que elas queriam saber como preparava para comer escondido depois.
Agora mudei de novo, estou morando longe do centro, mas tem um lado bem interessante de experimentar a vida local. Tenho uma rotina, vou para academia, supermercado e acabo presenciando briga de vizinhos, gritaria no supermercado, discussão e palavrões nos ônibus, bêbados em toda a parte, tudo muito longe do conceito de gentleman inglês que eu sempre tive.
Outro dia o motorista do ônibus parou no ponto e um carro estacionou na frente. No lugar de dar a volta, resolveu semear a discórdia com um buzinaço sem fim. A mulher que estava no carro falava no celular e por isso nem se mexeu. Quando se movimentou foi para sair do carro e falar umas poucas e boas para o motorista, nunca vi tanta criatividade para falar tantos palavrões em tão poucos minutos, alguns eu nem conhecia. Todos no ônibus fizeram: ohhhhh!! Aí veio o guarda, os três discutiram, foi uma beleza. Por isso me divirto, cada baixaria que eu pensava que só acontecia na periferia de São Paulo acontece em todo os lugares aqui. Tudo isso para a brasileira ver.....


Quinta-feira, Julho 30, 2009

Tudo sobre comida



Tem muita coisa estranha que acontece aqui na Inglaterra que nunca vi acontecer em São Paulo. Nem tudo é culpa dos ingleses, tem particularidades de diversas culturas, afinal aqui é uma Torre de Babel.
Por exemplo, as festas dos ingleses são sempre a mesma coisa. Muita bebida, nada para comer, tem hora para começar e para acabar. O máximo que se encontra é batatinha frita de pacote e doritos, que tem gosto de chulé com caldo knorr. Resultado: Em duas horas de festa, estão todos bêbados.
As festas dos latinos (América Latina e Sul da Europa) tem tudo em quantidade: comida, bebida e gente. Já escutei a seguinte frase aqui: “onde comem 20, comem 35 perfeitamente”, pois cada amigo chama um amigo e por aí vai. Aí tem churrasco, sanduíche, tortillas, canapés, bolo. Resultado: Em duas horas de festa, estão todos alegres. E ninguém vai embora antes de amanhecer o dia.
Tem também as esquisitices individuais. Uma estudante de Barbados me convidou para jantar e fez uma comida muito saborosa, só que em porções piores que as francesas, pois era um prato só. Ela serviu arroz e frango, foram quatro pessoas e só tinha um pedacinho para cada um. Claro que passei fome, cheguei em casa e jantei de novo. Aí uma americana também chamou um monte de gente para um brunch, com bastante antecedência, falou até qual seria o cardápio, mas na noite anterior se arrependeu e cancelou tudo, falou que era melhor todo mundo se encontrar num café.
O ponto alto foi a festa oriental: duas amigas resolveram comemorar os aniversários juntas, uma da Índia e outra da China. Prometeram comidas exóticas dos dois países, com a condição que cada um levasse uma bebida, o que é normal por aqui. Resultado: chamaram tanta gente que ficaram preocupadas com o overbooking. Para não fazer feio, mandaram um email da véspera dizendo a verdade: “Pessoal, acho que convidamos mais gente que deveríamos, portanto, não venham com muita fome e comam antes de vir porque a comida não vai dar”!
Pode???? Depois a gente é que é miserável......

Terça-feira, Junho 23, 2009

Diáspora brasileira


É ruim sentir saudades, mas tem um lado bom em passar um tempo longe do seu país. Você pode aloprar à vontade que ninguém vai te julgar. E nem podem, porque para quem pinta o cabelo azul, usa saia estampada com calça xadrez, sai fantasiado na rua para tomar todas as cervejas dos pubs e deixam as cuecas aparecendo porque acham lindo andar com a calça caindo, tem moral para falar o quê? Por exemplo, vou fazer compras com uma mala de rodinha para não carregar peso – é ridículo, mas ninguém me conhece mesmo....tô nem aí. Ando com a roupa amassada, canto música brasileira que ninguém entende e de quebra estou frequentando aulas de break dancing. Nas festas de brasileiros, danço tudo quanto é samba, salsa, forró, reggaeton (que aqui classificam como música brasileira ) e até o funk das cachorras. Só não criei coragem para dançar na boquinha da garrafa, que rola em quase todas as festas. É a famosa diáspora, a gente precisa encontrar os iguais de vez em quando, embora eu não tenha vindo aqui para isso. Mas é muito legal poder fazer um pão de queijo, manjar, queijadinha, falar palavrão em português sem correr o risco de não ser entendido.
O que não é muito fácil é entender as contradições desta sociedade, talvez por isso a gente precise se relacionar com culturas mais acessíveis aqui. Por que eles chamam todo mundo de ‘love’, mas se de fato eles não querem nem fazer amizade? Por que eles vendem roupa de verão se não faz calor? Por que tem gente pelada na televisão o tempo todo se eles são tão tímidos? Por que todo mundo gosta de ler fofoca mas quase não falam? Por que tem duas torneiras na pia com águas que não se misturam, uma queima e outra congela? São perguntas que não querem calar. E a água ainda vai pelo ralo pelo lado contrário, só porque estou no hemisfério norte...isso já é demais!

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Verão para inglês ver


A gente aprende na escola que o clima na Europa é temperado porque tem as quatro estações bem definidas, além de grande variação da duração do dia ao longo do ano. A segunda parte é verdade, pois agora que estamos praticamente no verão o dia amanhece às 4h30 e escurece às 21h30. Mas a primeira parte só deve ser verdade em países continentais, como a Espanha, a Itália e a França. Na Inglaterra não tem estação definida coisa nenhuma, só tem mais frio e menos frio. Para não ser injusta, só peguei quatro dias com temperaturas acima de 20 graus até agora, que foi na semana passada. Aí eu comemorei e saí de camiseta, foi a primeira vez que mostrei meus braços na rua, olhem a foto que não me deixa mentir.
Para dizer a verdade eu não preciso de calor o ano inteiro, acho que isso também é cansativo, mas só quatro dias de calor por ano? A média de temperatura anual aqui é 12 graus. Em São Paulo sobe para 20 e no Nordeste é 28. Não dá para comparar. A maior parte do tempo tenho de sair de casaco, não tem jeito.
Devem vir outros dias quentes por aí, mas quando você pergunta para um inglês como é o verão, em geral ele responde que no ano passado caiu numa terça-feira.......

Sexta-feira, Maio 08, 2009

Crônica de uma genitália anunciada




A TV inglesa é bizarra. Existe um programa no Channel 4 chamado “Embarassing Bodies” , que pelo título vocês podem imaginar do que se trata. São pessoas que estão descontentes com alguma parte do corpo, a ponto de não conseguir falar sobre o assunto nem com o médico.
O curioso é que as pessoas não se sentem confortáveis em conversar com o profissional, mas não tem nenhum problema em ir à TV e mostrar o que está incomodando para 5 milhões de expectadores.
Foi o que aconteceu com uma mulher na faixa dos 40 anos, de boa aparência e bem-sucedida. Apesar de desembaraçada, ela não conseguia falar sobre o problema. Ela não se sentia à vontade para tirar a roupa na frente do namorado, a não ser que a luz estivesse apagada. O motivo? Bem, erh, é lá embaixo...Mas o que tem de errado lá embaixo?
Muita pele, ela disse. Bem, vamos dar uma olhada, propôs a médica. Sem titubear, ela tira a roupa e deita na mesa ginecológica para mostrar que os pequenos lábios da vagina eram maiores que os grandes lábios, causando a ela um certo embaraço diante dos namorados. Mas acho que na frente de uma câmera não tinha o menor problema.
Foi feita uma cirurgia e ela mostrou o resultado, novamente para todo o país. Pronto, ela estava confiante para o próximo namorado, que já sabia o que ia encontrar quando a conhecesse. Ele e cinco milhões de britânicos.

Segue o link da bizarrice:
http://www.channel4embarrassingillnesses.com/video/embarrassing-bodies/consultation-enlarged-labia/

Domingo, Abril 19, 2009

O retorno da pizza ou a pizza do retorno





















Nestes poucos dias que fiquei em São Paulo, fiz questão de fazer um welcome back com pizza. Nunca pensei que eu ia sentir tanta falta das redondas, mas acho que é mais pelo lado social que pelo prato em si. Isso não quer dizer que a pizza da Inglaterra presta, longe disso, a melhor pizza do mundo é a de São Paulo, mas é que para nós comer pizza é algo que se faz com os amigos, ninguém vai à pizzaria sozinho. Eu sou ainda pior, não como pizza sozinha nem em casa, nem que sobrem pedaços do dia anterior. Tem de ter alguém para compartilhar. Na Inglaterra é algo para encher a barriga e só, tanto que nem tem pizza assada no forno a lenha, o melhor que tem aqui é a Pizza Hut. Para vocês verem como não dá para saborear a iguaria por aqui. Mas tudo isso para dizer que adorei meu retorno com pizza e amigos, obrigada a todos que foram, gostei muito!!
Já voltei para a primavera inglesa, saí dos 25 graus de São Paulo para os 10, 12 graus daqui. Mas como os dias são longos agora, vai ser mais fácil esperar até a próxima pizza em outubro, podem se preparar!

Domingo, Março 22, 2009

As nossas são melhores




O bom de ter experiências do outro lado mundo é dar valor para a própria cultura. Sempre tive a impressão que tudo no hemisfério norte funcionava melhor que no Brasil – mas não é bem assim. Aliás, que bom, porque em vários assuntos podemos dar aula para quem quiser aprender.

Um desses assuntos é atividade física. Para ser mais direta, corrida. O povo aqui não é profissional como em São Paulo, onde os grupos de corrida são bem estruturados, com treinos regulares, preparação, corridas planejadas. Aqui os grupos de corrida praticam uma vez por semana à noite e depois vão beber nos pubs. E a maioria corre sem orientação, sai correndo o quanto agüentar e pronto. Os instrutores das academias não estão nem aí, já que eles também não são lá os melhores exemplos de preparo. Um curso de duas semanas já habilita uma pessoa a ser instrutora de ginástica.

Bem, o fato é que após um longo e tenebroso inverno de seis meses parada por causa do meu problema na coluna (tem também o inverno daqui que não é mole), voltei a correr devagarzinho há um mês e decidi participar de uma corrida de rua em Leeds. É muito diferente. Começou às 10h30 da manhã, (no Brasil é sempre às 8), fez 7 graus (primavera começou ontem, 21 de março) a inscrição é feita pelo correio (não tem internet aqui?), não distribuem água no percurso e tinha só umas 200 pessoas. Para as corridas de São Paulo que têm no mínimo 2.000 pessoas, é uma grande diferença.

Aqui não se ganha medalha e só ganha camiseta de algodão quem chegar até o final, não é nem de dry fit e nem colorida – branca mesmo. E água só no fim também, não tem gatorade nem frutas. O preço? 9 libras, um pouco mais barato que no Brasil, dá uns 35 reais. Mas não tem nem a metade da organização.

De qualquer forma foi divertido, percurso dentro de um parque, com muitas subidas, muito verde, pouca gente, tudo medido em milhas. Foram só cinco, o que dá uns 8 quilômetros, quando eu vi já tinha acabado. Planejei fazer em 55 minutos, para ir devagar e sempre, mas quando a gente põe um número no peito, não tem jeito... fiz em 42 minutos. Vamos ver o que a minha coluna diz amanhã.

Em tempo: acabei de descobrir que tirei o primeiro lugar na minha categoria!! Recebi um troféu e um voucher de 20 libras pelo correio! Imagine se eu fizesse os tempos que fazia há seis meses....mais uma prova que eles realmente não treinam!

Sábado, Fevereiro 21, 2009

Sob controle

Algumas pessoas estão me mandando emails preocupadas com a nevasca que está atingindo o Reino Unido. Para dizer a verdade, a mídia britânica é muito mais sensacionalista que a brasileira, o diabo não é tão feio como pintam. E a previsão do tempo sempre erra, na prática é sempre melhor do que se diz na TV.

É verdade que nevou durante dois dias e algumas ruas e estradas ficaram bloqueadas em função da neve, com temperaturas de -3 ºC. Mas nada que precisasse de tanto alarde, tenho certeza que na Rússia e no Canadá a situação é muito pior. É verdade que eu pareço um pacote andando na rua, mas dá para agüentar, não é tão complicado porque a temperatura não muda muito – varia entre mais frio e menos frio, oscilando entre 0 e 5 graus.

O fato que é neve é muito bonita quando cai, é muito leve e não cai em linha reta, vai ziguezagueando pelo céu. Mas eu garanto que é mais bonita ainda olhando pela janela e com o aquecedor ligado. Quando vejo a neve caindo, penso: “Lá vou eu escorregar de novo”...parece a piada do português quando vê a casca da banana a três metros de distância, hheheeheh!

Por outro lado, eles são bem otimistas com relação à duração do inverno. O frio aqui começa em outubro e vai até abril, ou seja, a maior parte do ano. Mas a liquidação de inverno já foi e só se vê roupas de verão e meia estação nas lojas. Vai entender....

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Brazilian way



Descobri que o Brasil aqui é referência em beleza. Primeiro que tem um tipo de depilação aqui que se chama Brazilian Biquíni, que é o equivalente à nossa virilha cavada. Segundo que descobri que a nossa famosa progressiva foi criada no Brasil mesmo e agora está chegando aqui, chama-se Brazilian Blow Dry. Só que eu não vou ser testemunha nem de um nem de outro, primeiro que o primeiro custa o equivalente a 70 reais e o segundo a 800 reais...desculpe, não vai dar para testar!

Aliás, tem várias coisas que tem nome de outros países que o próprio país não é informado. Aquele molho inglês que a gente compra no Brasil aqui eles chamam Oycester sauce. É exatamente o mesmo. O bolo inglês aqui chama fruit cake, mas eles não tem noção que a gente criou nomes para eles.

Falando em comida, o supermercado aqui é algo curioso. Você pode entrar com quantas sacolas de outras compras que ninguém liga. Na primeira vez eu fiquei apavorada, fui perguntar para o gerente onde deixava as sacolas e ele nem ligou, falou para entrar com elas abertas mesmo. Na segunda vez fui falar de novo e na terceira já desencanei, ninguém se preocupa com isso.

Tenho o prazer de anunciar que a novela da geladeira foi resolvida! Depois do último show de horror na própria loja, eles me ligaram propondo uma troca, no lugar de devolver o dinheiro. Topei e já estou com a geladeira aqui, funcionando bem! O jeito brasileiro deu certo.
Mas para quê eu preciso de geladeira se faz tanto frio aqui? Para manter meu vício de queijólatra e iogurtólatra, pois só tenho uma prateleira na geladeira coletiva...já que até agora não aprendi a beber, vou mantendo os meus vícios anteriores...

Domingo, Janeiro 11, 2009

Caixas e crackers de Natal










Fim de ano é igual em todo lugar. Pessoas apressadas, trânsito, exagero de compras. Pura histeria coletiva, principalmente para um país que já anunciou estar passando pela crise mundial com muito mais dificuldade que os demais europeus. É igualzinho no Brasil. Tem crise, mas ninguém deixa de comprar. A diferença é que aqui que ninguém deixa para a última hora, as pessoas compram os presentes de Natal e enchem a geladeira de casa com antecedência. Saí no dia 24 de dezembro para fazer compras e as prateleiras dos supermercados pareciam uma terra devastada, não sobrou pedra sobre pedra.

Isso porque nada abre no dia 25 de dezembro. E nem no dia 26, é o tal do Boxing Day, feriado nacional. São várias as teorias das origens deste dia, mas a versão mais interessante que encontrei é que um dia depois de abertos os presentes de Natal, os mais abastados mandam as caixas para as igrejas com objetos para as pessoas pobres. Existe também a versão que as caixas abertas após o Natal serviam de proteção aos navios, durante as grandes navegações. O fato é que qualquer pessoa que você perguntar aqui sobre o que é o Boxing Day em Leeds, ninguém tem idéia, mas o importante é que é feriado. Por quê? Não interessa, é dia livre!

Ninguém faz nada na véspera de Natal, a não ser beber nos pubs (isso sim é que é importante aqui, vou ter de aprender a beber na marra, resolução de Ano Novo). No dia 25, as famílias almoçam juntas e abrem os Christmas crackers. Juro que eu pensava que era bolacha salgada, tem o mesmo formato, mas não é. Um maluco marqueteiro, um tal de Tom Smith, inventou o brinquedo no final do século 18 em Londres. As pessoas sentam lado a lado e puxam o breguete até rasgar no meio, quem conseguir ficar com a maior parte ganha o brinde e o chapéu de papel que vem dentro. No final está todo mundo de chapéu e com um brindezinho, tipo lixa de unha, ioiô, canetinha.

Quanta criatividade....tirando isso, a imaginação aqui vai longe, ninguém pergunta como foi o Natal e o Ano Novo, só pergunta o quanto você bebeu....